AÇÚCAR & ETANOL
Isabela Garcia

Isabela Garcia

Estudante de Economia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Possui experiência em pesquisa e trabalha na divisão de Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil com foco em Energia.
Este texto teve a colaboração de Bruno Cordeiro.

O papel do Brasil no mercado de petróleo

Brasil deve ter relevância nas exportações globais de petróleo

O mercado de petróleo em 2023 apresenta um cenário diferente de períodos anteriores, com um balanço global cada vez mais apertado sendo projetado por diferentes entidades internacionais, especialmente a partir do segundo semestre. No entanto, o aumento da demanda pelo óleo bruto não deve encontrar uma expansão equivalente da oferta nos próximos meses, considerando a queda produtiva de importantes players globais. Nessa conjuntura, o Brasil é apontado como um fornecedor importante, com o aumento da produção nacional aliviando parte do choque que se é esperado ao longo do ano. Dessa maneira, a Inteligência de Mercado estruturou uma análise sobre o papel do Brasil no mercado energético mundial – com foco em petróleo – e como o país deverá se posicionar em 2023.

 

A PRODUÇÃO BRASILEIRA

O Brasil detém apenas 0,7% das reservas mundiais de petróleo comprovadas, ou 11,9 bilhões de barris de petróleo, até 2020, ocupando a 15ª posição no ranking global. A partir dos anos 1990 e 2000, com a maior exploração da Bacia de Campos, a produção brasileira ganhou mais destaque no cenário internacional, chegando a 3,03 mbpd em 2020 – o melhor resultado para o país na série histórica. Com isso, o Brasil hoje se configura entre os dez maiores produtores globais de petróleo, sendo cada vez mais estratégico para o fornecimento global da commodity.

Ranking dos maiores produtores globais em 2021 – mbpd

Fonte: BP. Elaboração: StoneX.

Entre 2000 e 2022, a produção doméstica passou de 1,2 mbpd para 3 mbpd, um aumento de 145%, reflexo do aumento da exploração dos campos nacionais. Com isso, o Brasil passou a ser o maior ofertante da América Latina – aproveitando-se também da queda produtiva experimentada pela Venezuela em anos recentes. O aumento da oferta brasileira, por sua vez, tornou o país autossuficiente em petróleo, o que se refletiu em uma queda do volume importado nos últimos anos: em 2000, o Brasil importou 0,39 mbpd, enquanto em 2022 esse volume ficou em 0,27 mbpd (-31%), apesar da expansão da demanda interna pelo óleo bruto. As importações da commodity persistem, por sua vez, devido a limitações de processamento do petróleo brasileiro pelas refinarias nacionais, o que explica a participação ainda relevante desse volume importado sobre o total consumido pelo Brasil (14% em 2022).

Participação de petróleo importado sobre o consumo brasileiro – mbpd

Fonte: ANP. Elaboração: StoneX.

 

EXPORTADOR ESTRATÉGICO

O aumento da produção doméstica, no entanto, não foi acompanhado pela expansão da capacidade de refino em igual proporção. Nos últimos 20 anos, a capacidade de refino aumentou 24%, alcançando 2,3 mbpd, com o processamento do óleo bruto sendo distribuído por 19 refinarias pelo país. No entanto, a oferta doméstica atualmente ultrapassa 3 mbpd, havendo um déficit na capacidade de processamento doméstica, o qual se aprofunda devido à parte das refinarias do país não comportarem o processamento do petróleo brasileiro, como mencionado anteriormente, o que exige a importação de outros tipos de óleo bruto. Esse cenário, portanto, resulta em um excedente exportável elevado do óleo bruto.

Evolução das exportações sobre o total produzido domesticamente (mbpd)

Fonte: ANP. Elaboração: StoneX.

Nos últimos vinte anos, as exportações de petróleo brasileiro cresceram em um ritmo médio de 37% a.a, atingindo 1,34 mbpd em 2022. O ápice da série, no entanto, ocorreu em 2020, com 1,37 mbpd, pois, durante a pandemia, a queda do consumo doméstico por derivados de petróleo contribuiu para aumentar o excedente exportável, o que explica o resultado de 2020, quando as exportações representaram 47% da produção doméstica. Apesar da queda em anos recentes, motivada principalmente pelo aumento da demanda nacional, o Brasil continua enviando parte significativa de sua produção para o exterior. Dessa maneira, especialmente nos últimos 10 anos, o Brasil ganhou destaque como fornecedor estratégico no mercado global, enquadrando-se entre os 10 maiores exportadores da commodity no ano passado – ganhando espaço em relação ao Reino Unido, Colômbia, Venezuela e outros países menores da OPEP, como Líbia, Omã e Azerbaijão, por exemplo.

Principais países exportadores de petróleo em 2021 – mbpd

Fonte: JODI. Elaboração: StoneX.

Com a expansão das exportações de petróleo, o Brasil ampliou o número de parceiros comerciais em anos recentes. Até 2010, os principais importadores estavam localizados nas Américas, com destaque maior para os Estados Unidos, que chegavam a representar 35% das exportações brasileiras em 2007. Em anos recentes, no entanto, países como China e da Europa (representado por Espanha, Portugal e Países Baixos) estreitaram comércio com o Brasil. Assim, a China se tornou a maior importadora de petróleo brasileiro a partir de 2013, chegando a importar 193 milhões de barris no ano passado (40% do total exportado pelo país).

Exportações de petróleo por destino – Milhões de barris

Fonte: ANP. Elaboração: StoneX.

Com o envolvimento da Rússia no conflito no Leste Europeu, países da União Europeia deixaram de importar petróleo do país, aplicando sanções econômicas sobre os preços da commodity e de derivados. Dessa forma, a Rússia – segunda maior exportadora de petróleo do mundo – viu-se obrigada a redirecionar as exportações para outras regiões, voltando-se principalmente para Índia e China. Esses países se aproveitam dos descontos do petróleo russo no mercado internacional, priorizando o comércio com a Rússia frente ouros países.

Nesse cenário, as exportações brasileiras também sofreram mudanças relevantes ao longo de 2022 e nos primeiros meses desse ano. A participação chinesa sobre as exportações de petróleo entrou em queda a partir de 2020, com o país reduzindo 15% das importações no último ano (de 229 milhões de barris para 193 milhões). Tal movimento está associado a uma queda da demanda chinesa por petróleo ao longo de 2022 decorrente das restrições relacionadas à COVID-19 (-1%), mas também ao aumento das compras de óleo bruto russo. Além da China, outra mudança importante foi o aumento da participação de países europeus, especialmente Espanha e França (137% e 569%, respectivamente), conforme a região se volta para novos fornecedores para substituir o óleo russo.

 

EXPECTATIVAS PARA 2023

O Brasil, portanto, ampliou sua participação no comércio internacional de petróleo em anos recentes, enquadrando-se como um fornecedor estratégico no mercado global. Esse movimento, por sua vez, é reflexo do aumento da produção doméstica e do consequente excedente exportável dada as limitações do parque de refino do país. Diante do momento conturbado no mercado do óleo bruto desde o início do conflito no Leste Europeu, com os fluxos de comércio global da commodity sofrendo alterações potencialmente estruturais, o Brasil ganhou mais destaque como exportador, apesar de ser um produtor secundário de petróleo.

Em 2023, A StoneX estima um balanço deficitário, especialmente ao longo do segundo semestre. A recuperação econômica chinesa e indiana devem impulsionar a demanda por petróleo para 102 mbpd no ano, levando para o maior da série histórica, de acordo com a IEA. As projeções da agência, no entanto, apontam que a oferta deverá crescer 1,2 mbpd ao longo de 2023, não sendo suficiente para atender o consumo. Isso decorre das quedas produtivas de países da OPEP e da Rússia, as quais devem impactar o resultado global em até 1,6 mbpd. Entretanto, a entidade projeta que o aumento da oferta de países como Estados Unidos, Canadá e Brasil deverá amortizar parte da queda produtiva global.

Balanço global de O&D – mbpd

*Estimado. Fonte: StoneX, OPEP, EIA. Elaboração: StoneX.

De acordo com o relatório mensal do DOE, a produção brasileira de petróleo e outros óleos deve ultrapassar 4 mbpd, em média, ao longo de 2023, um aumento de 6,2% em relação ao ano passado. A tendência de alta deve se estender para 2024, com o país produzindo 4,13 mbpd em média – um aumento de 10% em comparação com 2022. Nesse sentido, considerando as limitações da capacidade de refino nacional, entende-se que o aumento produtivo no Brasil deve se refletir na expansão das exportações nos próximos anos.

Projeção da evolução da oferta brasileira – mbpd

Fonte: DOE. Elaboração: StoneX.

Entre janeiro e abril de 2023, observou-se um aumento de 21% das exportações brasileiras de petróleo, atingindo 178 milhões de barris no acumulado anual. A China segue sendo a maior parceira comercial do país, importando 84 milhões de barris até abril, volume 33% maior do que no mesmo período em 2022. Os Estados Unidos, por sua vez, caíram para a terceira posição (14 milhões de barris), perdendo espaço para a Espanha, a qual registrou um aumento de 79% do volume importado. Em geral, países europeus aumentaram as importações de petróleo brasileiro, crescendo frente os EUA e outros países asiáticos além da China e Singapura, como Índia e Coréia do Sul – o que reforça a tendência já observada ao longo de 2022.

Isabela Garcia

Estudante de Economia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Possui experiência em pesquisa e trabalha na divisão de Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil com foco em Energia.
Este texto teve a colaboração de Bruno Cordeiro

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